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Audiovisual Design e Design de Ficção: a vida imita a arte?

Por 29 de janeiro de 2020Cultura e Curiosidades
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O Audiovisual Design e o Design de Ficção são responsáveis por criar verdadeiros universos que fazem a realidade parecer coisa de filme! 

Você já se perguntou porque a ficção científica de antigamente parece cada vez mais com a realidade de hoje? 

Em entrevista concedida ao El País, a cientista e astrônoma Priymamvada Natarjan explica, sobre o marco histórico que foi a primeira imagem já feita de um buraco negro, que para se chegar a esta conquista foi necessária uma combinação de ciência e imaginação

Sim, imaginação!

Mesma matéria prima para a produção literária, para a produção audiovisual. 

Mesma matéria prima dos sonhos, talvez…

Segundo Lúcia Santaela, tanto na era digital quanto em outros momentos da história da humanidade, os artistas lançam-se a frente de seu tempo e quando surgem novos suportes e recursos tecnicos são os que tomam a dianteira na exploração das possibilidades que se abrem para criação

Tá. 

E o que isto tem a ver com Design?

Nós estamos chegando lá: imaginação e experimentação…

Durante os anos 90, década de minha infância, filmes e desenhos animados faziam, em diversidade ainda mais plural e com uma liberdade menos politicamente correta que hoje, por vezes, o que os Backyardigans e depois a Peppa Pig fizeram: alimentavam a imaginação de crianças e de adultos por longos períodos… 

Dentre uma lista do que poderíamos chamar de clássicos do universo dos desenhos animados, bem distante dos atuais porquinhos e porquinhas falantes, destaco aqui dois: Os Flinstones e Os Jetsons

De certo que, então, minha percepção – e a de muita gente! – sobre os desenhos era a mesma para ambos: distração divertida; afinal, ambos não passavam de pura ficção sem nenhuma relação com a realidade mas que muito alimentavam a imaginação.

Certo?

Bem, não. 

Ambos os desenhos animados surgiram no início dos anos 60, e embora à época a tecnologia em questão nos Jetsons parecesse tão ficção quanto o universo de Os Flinstones, em que humanos e dinossauros conviviam harmoniosamente, obviamente, não era.

Ou, pelo menos, não seria para sempre. 

Isto porque o cinema antecipa tendências tecnológicas e sociais, tanto por sua natureza criativa quanto por sua relação com o desenvolvimento tecnológico e industrial. 

O que significa que diferente dos Flinstones, desenho que nunca deixaria de ser a mais pura ficção, os Jestons, hoje, apresenta-se como um punhado de exemplos de Design de Ficção: videochamadas, robôs, tecnologia digital, TVs fininhas, jetpacks, dispositivos comunicacionais – como o smartfone, cidades flutuantes…

Um outro exemplo quase insuperável de Design de Ficção são as fotos que se movem em Harry Potter: nas obras elas se movimentam porque são mágicas; atualmente, porque são tecnológicas

Além dos efeitos como o Boomerang, do Instagram, há também artefatos de decoração tecnologicos – quadros, outdoors,  porta retratos– que exibem imagens em movimento…

Fonte: https://revistapegn.globo.com

Inclusive, a empresa Lifeprint, criou, em 2018,  uma impressora, The Harry Potter Magic Photo and Video Printer, capaz de revelar fotos em movimento inspirada no design de ficção de Harry Potter.

O Desenvolvimento tecnológico na era das ficções científicas 

A década de 60 foi extremamente agitada social e tecnologicamente

Foi quando os computadores passaram a ser pensados para fins comerciais e quando surgiu a precursora da Internet, a ARPANET, dentre outros tantos avanços…

Neste momento, o cinema, ainda feito literalmente através dos filmes, já vinha há muitos anos, desde de Fritz Lang, antecipando tendências tecnológicas

Ainda em Metrópolis, de 1927, o cineasta austríaco cria uma cidade do futuro em que não somente o robô ou a Inteligência artificial, ficções para então, retratam a realidade de hoje, mas o fazem também a antecipação da luta de classes e o controle da tecnologia.

Tal antecipação também fez a literatura, a exemplo dos livros de Isaac Asimov, que tão bem se encaixam na realidade atual – que mais parece a consumação de muitas profecias cinematográficas!

Contudo, diferente da literatura, o cinema demanda a materialização do texto. 

Esta materialização passa por muitas etapas: dentre elas uma das principais categorias é a direção de arte

De certo este termo ainda é popular mas em grandes estúdios tem se tornado quase obsoleto porque uma nova forma de se pensar o que muitos chamam de concepção artística do filme vem sendo feita: através do audiovisual design. 

De acordo com o dicionário do Google, o termo design significa:

1. Substantivo masculino

A concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.), esp. no que se refere à sua forma física e funcionalidade.

2. Metonímia 

o produto desta concepção
DESENHO INDUSTRIAL.
DESENHO DE PRODUTO
PROGRAMAÇÃO VISUAL.
DESENHO (‘forma do ponto de vista estético e utilitário’ e ‘representação de objetos executada para fins científicos, técnicos, industriais, ornamentais’).

A partir desta definição é possível se pensar numa série de aplicações para o termo design. 

Com o avanço tecnológico, os profissionais designers passaram a ocupar cada vez áreas mais abrangentes, nos mais diversos setores.

O audiovisual, por sua vez, também cria hoje um cenário extremamente amplo e em transformação, multidisciplinar e em constante estado de atualização.

Esta velocidade com a qual a tecnologia e as relações interpessoais se transformam tem sido palco para as mais incríveis inovações. 

Em sua obra Audiovisual Design – Theory and Practice, Wim Westera coloca que o processo de desenvolvimento de um produto audiovisual é em geral tido como um problema de design que consiste numa série de decisões de design – e não poderia estar mais correto!

Partindo desta premissa, do Robô de Metropolis até a Inteligência Artificial em I, Robot, o universo diegético do cinema de ficção científica é construído com base no desenvolvimento tecnológico de sua era e no que ele propõe a curto, médio e longo prazo

Dentre as principais tecnologias recentes que transformaram a realidade numa versão remake de muitos filmes do passado, destaca-se a IoT: internet of things, em bom português literalmente internet das coisas

Além desta, que tende a crescer nos próximos anos a partir da implementação das redes 5G, a evolução da tecnologia de nanosensores e captação de dados faz com que os diversos ramos da indústria 4.0 passem pela placa de vídeo e pelo processamento de imagens. 

Universo Transmídia

De acordo com o cientista Alex Kipman, nós vivemos na era das cavernas dos computadores e dos pixels

Kipman afirma que o futuro será bem distante das telas as quais hoje vivemos conectados. 

Contudo, o processo de revolução digital tem sido o mais veloz da história e, muito rapidamente, como coloca Doc Comparato, a humanidade chegou a uma curva exponencial da comunicação em massa: isso significa que da prensa de Gutemberg até a realidade virtual a humanidade piscou! 

Hoje, cinema, vídeo, games são tecnologias que andam juntas e passam pelos processos de computação gráfica

Juntas, as linguagens emergentes da revolução digital podem criar universos cada vez mais complexos, também chamados de Universo Transmídia, em que as narrativas se interligam e crescem, a exemplo da quantidade  de games e animações que tem virado filmes, e também o oposto. 

Mas como o Design entra no Audiovisual?

O fazer fílmico, há muito, não mais passa pelo filme, de fato: passa pela placa de vídeo

Atualmente, os antigos processos de captar a realidade são substituídos pelos processos de se criar a realidade, com o processamento de informações

Assim, um mundo novo repleto de possibilidades de criação surge, de modo que as “direções” do filme – fotografia, arte, edição… – passam a ser algo tão complexo e tecnológico que devem ser pensadas como um produto de design, cujas etapas são divididas e construídas por diversas equipes e profissionais que buscam na tecnologia, no design e na inovação soluções para a criação cinematográfica.

A organização de todas estas etapas de criação é um processo que resulta na criação de verdadeiros universos. 

Design de Ficção: da imaginação para o audiovisual, do audiovisual para a realidade 

Em geral toda a tecnologia que existe hoje é resultado de pesquisas que, inicialmente, eram voltadas para desenvolver tecnologia de guerra. 

Quando chega ao ramo comercial, o audiovisual é uma das indústrias que mais uso faz dela. 

Com o consumo de informações, desinformações e literatura, os roteiristas tem muitas possibilidades para criar e desenvolver universos e produtos que ainda não existem mas que já são especulados por autores, projetados em laboratórios, ou mesmo que já existem mas ainda não são comerciais, conhecidos

Um bom exemplo é sempre a famosa obra Star Track, em cuja primeira versão os dispositivos, que hoje parecem tão rudimentares, nada mais eram do que produto deste mecanismo de audiovisual design. 

Inclusive, as obras sobre exploração espacial sempre foram produtos ricos nesta antecipação tecnológica e, hoje, parece que voltaram à moda, deixando os espectadores com esta impressão de estarem vivendo num filme de ficção científica. 

Contudo, diferente de algumas décadas – décadas? Talvez década… – atrás, hoje, dispositivos ‘de mão’, inteligência artificial, wearables, drones, nanotecnologia, sensores, aceleradores de partículas são realidade

  • A Internet das Coisas, já há algum tempo, conecta mais máquinas do que há pessoas às redes wifi; 
  • A rede 5G promete mudar completamente a relação entre as pessoas, máquinas e cidades com a Internet; 
  • O desenvolvimento de sensores cada vez mais poderosos possibilita aos próprios computadores captarem a realidade diretamente da natureza em vez que apenas receberam informações sobre ela; 
  • A indústria criativa tem tantas possibilidades de criação e inovação que grandes estúdios, como a Disney, criam centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, como a Disney Research; 
  • Tecnologia audiovisual já é utilizada para monitoramento, cerceamento de pessoas e até mesmo identificação facial; 
  • A produção de imagens e vídeos aumenta a cada segundo; 
  • As tecnologias de Big Data, Blockchain e servidores moveis não param de crescer e transformar as relações pessoais e empresariais…

Design Ficcional 

Mas, afinal, o audiovisual design cria a realidade ou a ficção?

Entender como o audiovisual se relaciona com a realidade é uma busca histórica, e vem desde o Mito da Caverna de Platão até Benjamin e a semiótica – que pode ser entendida, de forma ampla, como a construção de sentido do filme. 

Esta construção de sentido passa, quase sempre, pela mente do diretor e o recorte que ele quer dar à sua história, ao sentido que ele quer produzir com seu filme. 

Um ponto importante sobre o Audiovisual Design é que ele se relaciona diretamente com esta construção de sentido, uma vez que a indústria cinematográfica tem cada vez mais artifícios para criar e reproduzir mundos, ideias, situações…

Em 2018, na Minas Audiovisual Expo, João Massarolo, da UFSCAR, discutiu bastante a relação complexa entre as construções de narrativas no universo transmídia, por exemplo, e o design, aspecto fundamental para o desenvolvimento da indústria de games – que não para de crescer. 

Mas, afinal, talvez Kipman tenha razão e a humanidade esteja ainda engatinhando na era digital, vivendo a era das cavernas dos computadores e pixels. 

Sendo assim, o audiovisual design é ainda mais importante, uma vez que as evoluções em realidade aumentada, realidade virtual, escaneamento de ambientes e captação de informações de sensores são tecnologias que a indústria cinematográfica vem financiando e desenvolvendo há muito tempo. 

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Fui uma criança escritora e através das palavras encontrei minha liberdade. Cineasta e atriz, formada em comunicação social com especialização em Direção, pesquiso o audiovisual e as novas mídias, o que me levou ao MBA em Marketing Digital e às suas múltiplas facetas neste universo de algoritmos e imagens numéricas.


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